Como criar um programa de Treinamento e Desenvolvimento: do diagnóstico ao planejamento

Como criar um programa de Treinamento e Desenvolvimento: do diagnóstico ao planejamento

 

Criar um programa de Treinamento e Desenvolvimento realmente eficiente exige muito mais do que organizar um calendário de cursos, contratar palestrantes ou perguntar aos gestores quais treinamentos gostariam de oferecer às suas equipes. Embora essas práticas ainda sejam comuns nas empresas, elas colocam o treinamento como ponto de partida quando, na realidade, ele deveria ser consequência de um processo anterior de diagnóstico. Antes de decidir o que ensinar, para quem ensinar ou qual metodologia utilizar, a organização precisa compreender quais problemas pretende resolver, quais competências são necessárias para sua estratégia e qual diferença existe entre o desempenho esperado e o desempenho atualmente apresentado pelas pessoas.

Essa mudança de perspectiva é importante porque nem todo problema organizacional pode ser resolvido por treinamento. Uma equipe pode apresentar baixa produtividade porque não domina determinado processo, mas também pode produzir menos porque utiliza sistemas inadequados, recebe informações inconsistentes, trabalha com metas conflitantes ou possui uma liderança que não oferece clareza sobre prioridades. Aplicar um treinamento sem investigar essas causas pode gerar uma experiência aparentemente positiva para os participantes, mas produzir pouca ou nenhuma mudança no resultado da empresa.

É por isso que um programa de T&D consistente começa pelo diagnóstico.

Treinamento e Desenvolvimento não são exatamente a mesma coisa

Embora Treinamento e Desenvolvimento sejam normalmente tratados conjuntamente dentro do RH, existe uma diferença importante entre os dois conceitos. O treinamento tende a responder a necessidades mais específicas de desempenho, preparando o profissional para executar melhor determinada atividade ou desenvolver uma competência necessária ao seu trabalho atual. O desenvolvimento possui uma perspectiva mais ampla, porque considera também a evolução profissional, a preparação para novas responsabilidades e a capacidade de enfrentar situações progressivamente mais complexas.

Imagine uma empresa que implementou um novo CRM e percebeu que os vendedores não estão registrando corretamente suas oportunidades. Existe uma necessidade relativamente objetiva de capacitação técnica. Agora imagine que a mesma empresa promoveu seus melhores vendedores para cargos de liderança e, alguns meses depois, começou a enfrentar problemas relacionados à centralização, dificuldade de delegação, ausência de feedback, conflitos e baixa capacidade de desenvolver os integrantes da equipe. Nesse segundo cenário, dificilmente uma palestra isolada sobre liderança será suficiente. Existe uma necessidade de desenvolvimento que envolve aprendizagem, experiência, acompanhamento, feedback e mudança comportamental ao longo do tempo.

Compreender essa diferença permite que o RH escolha intervenções compatíveis com a complexidade do problema.

Antes de fazer um LNT, entenda o problema do negócio

Uma das perguntas mais importantes para qualquer profissional de T&D deveria ser: qual problema do negócio queremos ajudar a resolver por meio do desenvolvimento das pessoas?

Essa pergunta muda a posição do RH dentro da organização. Em vez de atuar como uma área que recebe pedidos de treinamento, T&D passa a atuar como parceiro do negócio, investigando demandas e avaliando quais intervenções realmente podem contribuir para os resultados.

Considere uma situação bastante comum. Um gestor procura o RH dizendo que sua equipe precisa de um treinamento de comunicação. Se a área simplesmente aceitar essa demanda, provavelmente começará a procurar fornecedores, conteúdos e datas. Entretanto, uma abordagem consultiva exige investigação. O que significa, naquele contexto, “problema de comunicação”? As informações não chegam às pessoas? Os líderes não conseguem oferecer feedback? Existem conflitos entre áreas? Os colaboradores não compreendem prioridades? As reuniões são improdutivas? Os profissionais possuem dificuldade de comunicação com clientes?

São problemas diferentes que podem exigir soluções completamente diferentes.

Uma ferramenta simples que pode ajudar nesse processo é o método dos 5 Porquês, popularizado no contexto do Sistema Toyota de Produção. Em vez de permanecer no sintoma apresentado inicialmente, o profissional investiga sucessivamente as possíveis causas até chegar a uma compreensão mais profunda do problema. O Diagrama de Ishikawa, análise de indicadores, entrevistas individuais, grupos focais, observação do trabalho e análise documental também podem ser utilizados nessa etapa.

Nem todo problema de desempenho é falta de treinamento

Essa ideia encontra sustentação importante nos estudos sobre desempenho humano. Thomas F. Gilbert, autor de Human Competence: Engineering Worthy Performance, chamou atenção para a necessidade de analisar o contexto no qual o desempenho acontece, evitando atribuir automaticamente os problemas às pessoas.

Em termos práticos, antes de concluir que alguém precisa de treinamento, é necessário investigar se o profissional possui informações adequadas, recursos, ferramentas, expectativas claras, incentivos coerentes e condições para realizar aquilo que a organização espera dele.

Imagine que uma empresa deseja reduzir o tempo de atendimento ao cliente. Antes de desenvolver um treinamento sobre produtividade, seria necessário verificar se o problema não está relacionado ao sistema utilizado, à quantidade de aprovações exigidas, à distribuição das atividades ou à ausência de autonomia. Caso a principal causa esteja no processo, treinar as pessoas pode simplesmente ensiná-las a trabalhar melhor dentro de um sistema que continua ineficiente.

Essa capacidade de diferenciar problemas de competência de problemas de contexto é uma das características que distinguem um T&D operacional de um T&D estratégico.

Como fazer um Levantamento de Necessidades de Treinamento

Depois de compreender o contexto, é possível avançar para o Levantamento de Necessidades de Treinamento, conhecido como LNT. Uma análise consistente deve considerar pelo menos três perspectivas: organização, função e indivíduo.

No nível organizacional, T&D precisa compreender para onde a empresa está indo. Se o planejamento estratégico prevê expansão acelerada, por exemplo, talvez seja necessário preparar novas lideranças, desenvolver sucessores e criar mecanismos para acelerar a integração de novos profissionais. Se a prioridade estratégica é melhorar a experiência do cliente, competências relacionadas a atendimento, comunicação, resolução de problemas e orientação ao cliente podem ganhar maior relevância.

No nível da função, é necessário compreender quais competências técnicas e comportamentais são necessárias para uma execução adequada. Isso pode ser realizado por meio de descrição de cargos, entrevistas com gestores, análise de profissionais de alta performance, mapeamento de processos e construção de matrizes de competências.

No nível individual, a análise procura compreender quais lacunas aparecem em profissionais específicos. Avaliações de desempenho, reuniões individuais, feedback 180° ou 360°, assessments, indicadores de produtividade e Planos de Desenvolvimento Individual podem fornecer informações relevantes.

A qualidade do LNT depende justamente da combinação dessas fontes. Quando o RH utiliza apenas a percepção do gestor, existe o risco de transformar opiniões individuais em diagnóstico organizacional.

Como utilizar uma matriz de competências

Uma ferramenta prática é construir uma matriz relacionando a importância da competência, o nível esperado e o nível atualmente observado. Uma organização pode definir, por exemplo, que determinado cargo de liderança exige nível cinco de capacidade de feedback, mas o diagnóstico indica que o grupo apresenta nível médio dois. A diferença encontrada representa um gap que precisa ser analisado.

Entretanto, não basta simplesmente escolher os maiores gaps. É necessário considerar o impacto estratégico da competência. Uma lacuna pequena em uma competência crítica pode ser mais relevante do que uma lacuna grande em uma competência de baixa influência sobre os resultados.

Essa análise permite construir uma matriz de priorização na qual T&D cruza três elementos: tamanho do gap, importância estratégica e quantidade de pessoas impactadas.

A partir desse ponto, o plano anual deixa de ser uma coleção aleatória de treinamentos e começa a representar uma resposta estruturada às prioridades da organização.

O caso do Project Oxygen, do Google

Um exemplo interessante de desenvolvimento orientado por evidências é o Project Oxygen, realizado pelo Google. A empresa utilizou dados internos para investigar quais comportamentos estavam relacionados aos gestores mais eficazes. A análise considerou diferentes fontes de informação e permitiu identificar comportamentos gerenciais associados à qualidade da liderança.

Entre os comportamentos identificados ao longo do projeto estavam aspectos relacionados à capacidade de oferecer coaching, comunicação, apoio ao desenvolvimento profissional, orientação para resultados, visão estratégica e tomada de decisão.

A grande aprendizagem para profissionais de T&D não está simplesmente em copiar a lista de comportamentos encontrada pelo Google. O mais importante é compreender o método. Em vez de começar perguntando “quais temas devemos colocar no treinamento de liderança?”, a empresa buscou compreender quais comportamentos efetivamente diferenciavam seus gestores.

Essa lógica pode ser aplicada em organizações de diferentes portes. O RH pode entrevistar líderes de alta performance, analisar avaliações, conversar com equipes, estudar indicadores e procurar padrões. A partir dessas evidências, consegue construir programas muito mais conectados à realidade organizacional.

Transformando diagnóstico em objetivos de desenvolvimento

Depois de identificar os gaps prioritários, é necessário transformá-los em objetivos claros. Expressões como “desenvolver liderança”, “melhorar comunicação” ou “aumentar inteligência emocional” são amplas demais para orientar um programa.

Um objetivo mais consistente descreve o comportamento esperado. Em um programa de feedback, por exemplo, a organização poderia estabelecer que, ao final do processo, os gestores deverão ser capazes de conduzir conversas estruturadas utilizando fatos observáveis, explicar impactos, ouvir a perspectiva do colaborador e estabelecer acordos claros de desenvolvimento.

A Taxonomia de Bloom, posteriormente revisada por Lorin Anderson e David Krathwohl e colaboradores, é uma referência útil nesse processo porque ajuda a diferenciar níveis de aprendizagem. Não é a mesma coisa lembrar um conceito, compreendê-lo, aplicá-lo, analisá-lo, avaliá-lo ou criar algo a partir dele.

Quando uma empresa espera mudança comportamental, um treinamento baseado apenas em exposição de conteúdo normalmente é insuficiente. O participante precisa ter oportunidade de praticar, receber feedback e transferir aquilo que aprendeu para situações reais.

O que deve existir antes de montar o treinamento

Antes de abrir o PowerPoint ou procurar um facilitador, o profissional de T&D deveria conseguir responder com clareza qual problema está sendo enfrentado, quais evidências demonstram sua existência, quem é afetado, quais causas foram identificadas, quais competências precisam ser desenvolvidas, quais comportamentos são esperados e quais indicadores poderão demonstrar evolução.

Somente depois dessas respostas começa o desenho da experiência de aprendizagem.

Essa é uma mudança fundamental de mentalidade: um bom programa de Treinamento e Desenvolvimento não começa pelo conteúdo. Começa pelo diagnóstico.

Referências para aprofundamento

GILBERT, Thomas F. Human Competence: Engineering Worthy Performance. Pfeiffer.

ANDERSON, Lorin W.; KRATHWOHL, David R. et al. A Taxonomy for Learning, Teaching, and Assessing. Longman.

GOOGLE re:Work. Pesquisas e práticas relacionadas ao Project Oxygen e desenvolvimento de gestores.

TOYOTA. Literatura e estudos relacionados ao Toyota Production System e melhoria contínua.

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