Durante muitos anos, o RH se acostumou a ocupar um lugar confortável dentro das organizações. Um lugar onde cuidar de pessoas parecia suficiente para justificar sua existência, onde a proximidade com o humano servia quase como um escudo contra cobranças mais duras relacionadas a resultado, performance e impacto financeiro. Esse modelo funcionou por um tempo, mas deixou de ser sustentável há alguns anos e, em 2026, ele se tornou um risco real para as empresas que ainda insistem nessa lógica.
Toda decisão relacionada a pessoas tem impacto direto no negócio, seja de forma positiva ou negativa. Contratações feitas sem critério, processos seletivos superficiais, líderes promovidos apenas por tempo de casa, ausência de desenvolvimento estruturado e uma cultura organizacional que existe apenas no discurso são fatores que afetam diretamente produtividade, faturamento, retenção de talentos e clima interno. Ignorar essa relação é fingir que pessoas e resultados caminham em trilhas separadas, quando na verdade sempre estiveram profundamente conectadas.
O problema não está no RH ser humano, como muitos gostam de repetir. O problema está no RH que se recusa a assumir responsabilidade estratégica. Quando a área se limita a executar demandas, cumprir processos e reagir a problemas que já explodiram, ela deixa de atuar na causa e passa a viver apenas na consequência. E consequência, normalmente, custa caro.
Alta rotatividade não é um fenômeno inevitável do mercado. Na maioria das vezes, ela é o reflexo de decisões mal tomadas ao longo do caminho, começando pela forma como a empresa recruta, passando pela maneira como desenvolve seus líderes e chegando à incoerência entre o que se promete e o que se entrega no dia a dia. Quando o RH não mede esses impactos, não traduz esses dados em linguagem de negócio e não provoca a liderança a rever estratégias, ele deixa de proteger a empresa e passa a apenas administrar problemas.
Existe uma crença perigosa de que falar de números e indicadores afasta o RH do seu papel humano. Na prática, acontece exatamente o oposto. Quando o RH entende o impacto financeiro das pessoas, ele ganha força para defender decisões mais responsáveis, processos mais profundos e investimentos mais inteligentes. Ele deixa de pedir espaço e passa a ocupá lo com autoridade.
Empresas maduras já compreenderam que o RH não está ali para agradar, mas para sustentar decisões difíceis, questionar escolhas incoerentes e antecipar riscos humanos antes que eles se tornem crises organizacionais. Nessas empresas, o RH participa da estratégia, discute crescimento, aponta limites e constrói soluções que equilibram resultado e pessoas de forma realista, não romantizada.
O RH que insiste em se manter distante do negócio, evitando conflitos e se escondendo atrás de discursos genéricos sobre bem estar, corre o risco de se tornar irrelevante. E, em tempos de pressão por eficiência, áreas irrelevantes são as primeiras a serem enxugadas.
Cuidar de pessoas continua sendo essencial, mas cuidar de pessoas sem entender o impacto disso nos resultados é apenas boa intenção. E boa intenção não sustenta empresas, não retém talentos e não prepara lideranças para os desafios que já estão acontecendo.
A pergunta que fica não é se o RH precisa mudar, mas se ele está disposto a assumir o papel que sempre deveria ter ocupado. Um papel estratégico, responsável, conectado com a realidade do negócio e capaz de gerar impacto mensurável.
O RH da sua empresa é parte da estratégia ou apenas uma área que reage aos problemas depois que eles já custaram caro demais